
Congresso Farol 2026: minha experiência viajando sozinha, acessibilidade e o que poderia melhorar ✈️💙
Participar do Congresso Farol 2026 foi uma experiência cheia de sentimentos diferentes para mim. Teve ansiedade, cansaço, momentos de sobrecarga, aprendizados, palestras interessantes e também alguns pontos que, na minha opinião, poderiam ser melhorados — principalmente quando falamos de acessibilidade para pessoas com deficiência e pessoas autistas.
Como eu já havia participado do Congresso Farol no ano passado, inevitavelmente acabei fazendo algumas comparações entre as duas edições. Algumas mudanças foram muito positivas, outras fizeram falta e outras poderiam ser repensadas para tornar o evento ainda mais inclusivo.
Além disso, desta vez havia um desafio importante para mim: eu viajei sozinha de avião. ✈️
Para muitas pessoas isso pode parecer algo simples, mas, sendo uma pessoa autista, viajar sozinha envolve muito mais do que comprar uma passagem, entrar no avião e chegar ao destino. Existe toda uma preparação emocional, mental e prática antes mesmo da viagem começar.
Viajar sozinha de avião sendo autista ✈️
Uma das partes mais marcantes dessa viagem aconteceu antes mesmo de eu chegar ao Congresso Farol.
Eu fui sozinha de avião, e isso naturalmente aumentou bastante a minha ansiedade.
Quando somos autistas, situações que envolvem muitas etapas, mudanças de ambiente, horários, deslocamentos e possíveis imprevistos podem exigir uma quantidade enorme de energia mental.
A viagem começa muito antes de o avião sair do chão.
É preciso pensar no horário de sair de casa, no check-in, nos documentos, na bagagem, no portão de embarque, em possíveis alterações no voo, onde sentar, como será o desembarque e o que fazer depois de chegar.
Mesmo quando planejamos tudo antecipadamente, existe aquela preocupação:
“E se alguma coisa acontecer diferente do que eu planejei?”
Para uma pessoa autista, essa antecipação pode ser bastante cansativa. 😥
No meu caso, consegui fazer a viagem sozinha e considero isso uma conquista pessoal importante.
Mas conseguir fazer algo não significa que aquilo seja fácil ou que a ansiedade simplesmente desapareça.
Às vezes conseguimos realizar determinada atividade apesar da ansiedade, do medo e do desgaste que ela gera.
De Florianópolis até Bombinhas: trânsito e muito cansaço 🚗
Depois de chegar ao aeroporto de Florianópolis, ainda havia todo o deslocamento até Bombinhas.
E essa parte acabou sendo bastante estressante.
O trânsito estava intenso e a viagem de Florianópolis até Bombinhas demorou bastante.
Depois de todo o esforço emocional de viajar sozinha de avião, ficar por muito tempo no trânsito acabou aumentando ainda mais o meu nível de cansaço.
Para pessoas autistas, esse tipo de situação pode pesar bastante.
Você já passou por aeroporto, avião, desembarque, mudança de ambiente, barulho, pessoas, instruções e várias pequenas decisões. Depois disso, ainda precisa lidar com trânsito, tempo dentro do carro, barulho, calor, fome e aquela sensação de não saber exatamente quanto tempo ainda falta para chegar.
Quando finalmente chegamos, eu já estava bem cansada.
E essa experiência me fez pensar novamente em algo que muitas vezes esquecemos quando falamos sobre turismo e eventos para pessoas autistas:
o evento não começa apenas quando entramos pela porta.
Todo o deslocamento até o local também faz parte da experiência.
Congresso Farol 2026: muitas palestras interessantes 💡
Falando especificamente sobre o Congresso Farol 2026, considero que a experiência geral foi positiva.
Havia muitas palestras interessantes, diferentes profissionais, temas importantes e bastante conteúdo durante a programação.
Eventos como o Congresso Farol são importantes porque criam espaço para conversar sobre autismo, inclusão, desenvolvimento, educação, famílias, profissionais e diferentes experiências dentro do espectro.
Também são oportunidades para conhecer pessoas que acompanhamos pelas redes sociais, encontrar profissionais, trocar experiências e ouvir diferentes perspectivas.
Ao mesmo tempo, existe um ponto que sempre pesa bastante para mim:
é um evento cansativo.
Um congresso pode ser muito cansativo para uma pessoa autista
Mesmo quando estamos gostando muito das palestras, precisamos lembrar que um congresso envolve vários estímulos ao mesmo tempo.
São muitas pessoas conversando, circulação constante, luzes, sons, filas, palestras, mudanças entre espaços, interação social e a necessidade de permanecer atenta durante várias horas.
Para mim, depois de algum tempo, isso se torna bastante cansativo.
E isso não significa que o evento esteja ruim.
Às vezes estamos realmente gostando do conteúdo, mas o nosso corpo e o nosso cérebro simplesmente começam a pedir descanso.
Existe aquele conflito entre:
“Quero assistir essa palestra.”
e
“Eu preciso ficar alguns minutos longe de tudo.”
Por isso, um dos pontos que mais gostei no Congresso Farol 2026 foi justamente a existência de uma sala de descompressão.
Sala de descompressão: um dos melhores espaços do congresso 🧩💙
A sala de descompressão do Congresso Farol 2026 foi, para mim, extremamente importante.
Era um espaço onde eu podia entrar, diminuir os estímulos, descansar um pouco e me regular antes de voltar para as atividades.
Ter esse tipo de ambiente em eventos relacionados ao autismo deveria ser algo básico, mas ainda vemos muitos eventos que falam sobre inclusão sem oferecer espaços realmente pensados para pessoas neurodivergentes.
No Farol, esse espaço fez diferença.
Em determinados momentos eu precisava simplesmente parar.
Não conversar.
Não prestar atenção em uma palestra.
Não processar dezenas de informações.
Apenas descansar.
Depois de algum tempo ali, eu conseguia voltar para o congresso mais regulada.
Isso mostra como algumas adaptações podem permitir que uma pessoa autista permaneça por mais tempo em um evento sem chegar tão rapidamente ao seu limite.
O espaço estava mais aberto do que no ano passado
Outro ponto positivo que percebi nesta edição foi que o local parecia mais aberto do que no ano anterior.
Na minha experiência, isso ajudou bastante.
Ambientes muito fechados, corredores apertados e grande concentração de pessoas podem aumentar aquela sensação de sobrecarga.
Ter mais espaço para circulação torna a experiência mais confortável, especialmente nos horários em que há mais pessoas circulando pelo evento.
Esse foi um dos pontos positivos da edição de 2026. 👏
Senti falta de mais fotos com os palestrantes 📸
Um dos pontos que senti diferença em relação ao ano passado foi a possibilidade de tirar fotos com os palestrantes.
Não significa que ninguém tenha tirado fotos com o público. Alguns palestrantes, como Lucelmo Lacerda, por exemplo, ainda tiveram momentos em que foi possível fazer esse registro.
Porém, na minha percepção, isso aconteceu com bem menos palestrantes do que no ano passado.
Na edição anterior havia uma dinâmica que facilitava mais esse contato e possibilitava registrar o momento com diferentes profissionais e convidados do congresso.
Em 2026, com a criação do novo pacote Experience, parte dessa proximidade e de algumas experiências ficou mais concentrada em uma categoria específica de ingresso.
Para quem estava com o ingresso comum, a sensação foi de que essa possibilidade ficou mais limitada.
Eu entendo que eventos precisam criar diferentes categorias de ingresso e podem oferecer benefícios extras para determinados pacotes.
Também acho válido existir uma experiência premium com vantagens adicionais.
O ponto que me faz refletir é quando algo que antes fazia parte de maneira mais ampla da experiência do congresso passa a ficar mais restrito.
Na minha opinião, seria interessante encontrar um equilíbrio.
O Experience pode continuar tendo benefícios exclusivos, mas seria muito legal manter alguma possibilidade mais ampla de interação ou fotografia com os palestrantes também para o restante do público.
Também senti falta do lanche de desjejum ☕
Outra diferença em relação ao ano passado foi o lanche de desjejum.
Na edição anterior havia esse pequeno lanche, algo que considero bastante positivo quando pensamos que muitas pessoas chegam cedo e permanecem praticamente o dia inteiro no congresso.
Desta vez não tivemos esse lanche da mesma forma.
Havia comida disponível para quem ficava na sala do Experience, mas não para todo o público.
E acredito que esse é um detalhe que faz diferença.
Principalmente em um evento longo, oferecer algo simples pela manhã pode ajudar bastante.
Não precisa ser nada sofisticado.
Um café, uma fruta, um pão ou um pequeno lanche já pode melhorar bastante a experiência de quem saiu cedo do hotel ou enfrentou um deslocamento longo para chegar ao congresso.
Alimentação no Congresso Farol: simples e boa, mas um pouco cara 🍔
Sobre as opções de alimentação disponíveis no local, achei as comidas simples e boas.
Conseguimos comer normalmente e não tive nenhum problema importante em relação à qualidade.
O principal ponto negativo, na minha percepção, foi o preço.
Algumas coisas estavam um pouco caras.
É claro que alimentação dentro de eventos normalmente acaba tendo preços mais altos, mas quando somamos ingresso, viagem, hospedagem, estacionamento e alimentação, participar de um congresso desse porte acaba se tornando um investimento considerável.
Para famílias que viajam de outras cidades ou estados, esse valor aumenta ainda mais.
Estacionamento com vagas para PCD ♿
Um ponto importante para nós foi o estacionamento.
Havia vagas destinadas a pessoas com deficiência — PCD e conseguimos utilizá-las.
Isso facilitou o acesso ao evento e considero muito positivo que exista essa preocupação.
Ter vagas reservadas próximas ao acesso é essencial, principalmente para pessoas que possuem necessidades específicas de mobilidade ou outras condições que tornam deslocamentos longos mais difíceis.
Porém, o estacionamento custava R$ 30 por dia.
Quando pensamos em um evento com vários dias de duração, esse valor também precisa entrar na conta da viagem.
Os ingressos têm lotes, mas e um benefício específico para PCD?
Esse é um dos principais pontos que gostaria de deixar como sugestão para futuras edições do Congresso Farol.
O congresso possui diferentes lotes de ingresso, e normalmente quem compra nos primeiros lotes consegue pagar um valor mais baixo.
Isso é positivo porque permite que quem se organiza com antecedência consiga economizar.
Mas acredito que existe uma diferença importante entre um lote promocional e uma política pensada especificamente para pessoas com deficiência.
O valor reduzido dos primeiros lotes está relacionado ao momento da compra e vale para qualquer pessoa que consiga adquirir o ingresso naquele período.
Já um benefício específico para PCD teria outra finalidade: tornar o evento mais acessível financeiramente para um público que faz parte diretamente dos temas discutidos no congresso.
Na minha opinião, seria interessante que o evento disponibilizasse de forma clara alguma modalidade de meia-entrada, desconto ou ingresso com valor específico para pessoas PCD.
Estamos falando de um congresso que aborda diretamente temas relacionados ao autismo, inclusão, deficiência e neurodiversidade.
Por isso, acredito que oferecer condições mais acessíveis para que pessoas com deficiência possam participar seria muito coerente com a própria proposta do evento.
Nem toda pessoa autista possui a mesma condição financeira.
Muitas pessoas PCD já possuem gastos elevados relacionados a terapias, consultas, medicamentos, transporte, adaptações, acompanhantes e diversas outras necessidades.
Além disso, quem vem de outra cidade ainda precisa pagar passagem ou combustível, hospedagem, alimentação e outros custos da viagem.
Quem consegue comprar no primeiro lote paga menos, sim, mas nem sempre uma pessoa consegue se organizar ou ter o dinheiro disponível justamente naquele período.
Por isso, acredito que pensar em um ingresso PCD mais acessível independentemente do lote poderia permitir que mais pessoas autistas participassem diretamente dessas discussões.
Para mim existe algo especialmente importante nisso:
não basta falar sobre pessoas autistas. É importante criar condições para que pessoas autistas também estejam presentes.
A volta para casa e a sala sensorial do Aeroporto de Florianópolis 💙✈️
Na volta, meus pais me deixaram mais cedo no Aeroporto de Florianópolis.
Isso significava que eu teria bastante tempo até o meu voo.
Para algumas pessoas, esperar várias horas em um aeroporto pode não ser um grande problema. Mas aeroportos são ambientes naturalmente carregados de estímulos.
Existem avisos sonoros, pessoas passando o tempo todo, malas fazendo barulho, crianças, filas, telas, chamadas de embarque e mudanças constantes ao nosso redor.
Foi nesse momento que tive uma experiência muito positiva com a sala sensorial do Aeroporto de Florianópolis.
Eu achei a sala sensorial muito boa. 💙
Ter um espaço pensado justamente para reduzir estímulos e permitir um momento de regulação faz muita diferença, principalmente quando precisamos permanecer bastante tempo dentro do aeroporto.
Em vez de passar todo o período de espera em um ambiente cheio, com movimento e barulho constantes, pude ter um espaço mais tranquilo para descansar e me organizar emocionalmente antes do voo.
Esse tipo de iniciativa mostra como acessibilidade também significa pensar nas necessidades sensoriais.
Nem toda deficiência é visível e nem toda necessidade de acessibilidade envolve apenas rampas, elevadores ou mobilidade.
Para muitas pessoas autistas, ter um ambiente com menos estímulos pode ser a diferença entre conseguir fazer uma viagem de maneira mais tranquila ou chegar ao limite de uma sobrecarga sensorial.
Depois de toda a intensidade da viagem, do congresso e dos deslocamentos, encontrar esse espaço no aeroporto foi muito positivo.
Acessibilidade precisa estar em todo o caminho
Essa viagem também mostrou algo que considero muito importante quando falamos sobre turismo acessível para pessoas autistas.
A acessibilidade não deveria existir apenas no destino final.
Ela precisa estar presente durante todo o caminho.
No aeroporto.
No transporte.
No hotel.
No congresso.
No estacionamento.
Na alimentação.
Nos momentos de espera.
E também nos espaços onde uma pessoa possa simplesmente parar e se regular.
A sala de descompressão do congresso e a sala sensorial do Aeroporto de Florianópolis foram dois exemplos muito claros de como um ambiente adequado pode mudar completamente a experiência de uma pessoa autista.
O saldo final do Congresso Farol 2026 💙
Apesar dos pontos que acredito que poderiam melhorar, minha experiência no Congresso Farol 2026 foi positiva.
Gostei das palestras, dos assuntos apresentados e principalmente de perceber algumas melhorias estruturais, como o espaço mais aberto e a sala de descompressão.
A sala de descompressão, inclusive, foi fundamental para mim.
Sem ela, provavelmente teria sido muito mais difícil permanecer no evento durante tantas horas.
Ao mesmo tempo, senti falta de algumas coisas que fizeram parte da experiência do ano anterior, especialmente uma possibilidade maior de fotografar com os palestrantes e o lanche oferecido pela manhã.
Alguns palestrantes ainda tiraram fotos com o público, como o Lucelmo Lacerda, mas achei essa possibilidade bem mais limitada quando comparada ao ano passado.
A criação do pacote Experience também trouxe uma sensação de separação maior entre algumas experiências disponíveis durante o congresso.
Entendo a proposta de existir uma categoria premium, mas acredito que seria importante tomar cuidado para que a experiência padrão não perca benefícios que antes faziam parte do evento de forma mais ampla.
Essa viagem também foi uma conquista pessoal 🌻
Além do congresso em si, essa viagem significou algo maior para mim.
Eu viajei sozinha de avião.
Fiquei ansiosa.
Enfrentei aeroportos.
O trajeto até Bombinhas foi cansativo.
O trânsito foi estressante.
O congresso exigiu bastante energia.
Em alguns momentos precisei me afastar, descansar e me regular.
E depois ainda precisei fazer todo o caminho de volta para casa.
Essa experiência me lembrou novamente que autonomia não significa fazer tudo sem dificuldade.
Às vezes, autonomia significa conhecer nossas necessidades, preparar estratégias, utilizar os recursos disponíveis e entender quando precisamos descansar.
Viajar sendo uma pessoa autista pode envolver planejamento, antecipação, ansiedade e adaptação.
Mas também pode trazer experiências muito importantes e aquela sensação boa de perceber:
“Eu consegui.” 💙
O que eu gostaria de ver no Congresso Farol 2027?
Se pudesse deixar algumas sugestões para uma próxima edição, seriam:
- manter e, se possível, ampliar a sala de descompressão;
- continuar utilizando espaços amplos e com boa circulação;
- criar alguma opção clara de meia-entrada, desconto ou ingresso específico para PCD, além dos lotes promocionais;
- retomar uma possibilidade mais ampla de interação ou fotografia com os palestrantes para o público geral;
- oferecer novamente um pequeno lanche de desjejum;
- buscar opções de alimentação com preços mais variados;
- continuar garantindo vagas de estacionamento destinadas ao público PCD;
- pensar cada vez mais na acessibilidade sensorial do evento;
- ouvir pessoas autistas sobre o que pode tornar o congresso ainda mais acessível.
O Congresso Farol é um evento importante e acredito que justamente por abordar temas relacionados ao autismo existe uma oportunidade enorme de se tornar cada vez mais uma referência também em acessibilidade na prática.
Valeu a pena participar do Congresso Farol 2026?
Para mim, sim.
Foi cansativo, algumas coisas poderiam ter sido melhores e houve momentos bastante estressantes durante a viagem, mas também trouxe conhecimento, experiências novas e uma conquista pessoal importante.
Voltei para casa pensando não apenas nas palestras, mas também em como podemos tornar viagens, congressos e eventos cada vez mais acolhedores para pessoas autistas.
Porque inclusão não está apenas no tema de uma palestra.
Inclusão está no ingresso.
No estacionamento.
Na alimentação.
Na possibilidade de fazer uma pausa.
Na sala de descompressão.
Na sala sensorial de um aeroporto.
No ambiente.
Na comunicação.
E principalmente na possibilidade de participar sem precisar ultrapassar todos os nossos limites para estar ali. 🌻
Você também participou do Congresso Farol 2026?
Conta nos comentários como foi a sua experiência e quais pontos você gostaria de ver melhorados nas próximas edições. 💬
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